Jovem que perdeu R$ 500 mil em bets vende café em semáforo para ajudar a superar vício e viraliza: 'Não me sentia vivo assim há tempos'
26/08/2026
(Foto: Reprodução) Jovem começa a vender café em semáforo para ajudar a superar vício em bets em SC
O dia de Gustavo Pereira, de 24 anos, começa cedo, às 4h. É nessa hora que ele levanta para começar a preparar o café e o chocolate quente que vende em um semáforo em Lages, na Serra de Santa Catarina.
O jovem tem mais dois empregos e escolheu comercializar as bebidas para ocupar a mente pela manhã com uma atividade. Ele superou um vício que tinha em apostas e usa o café para contar a própria história e inspirar pessoas que buscam uma forma de parar com as bets.
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Jovem limitou uso de celular e passou a andar só com cédulas para evitar novas apostas
Ele conta que a compulsividade pelas apostas chegou ao extremo, com a perda de mais de R$ 500 mil em jogos on-line entre 2020 e 2026. Os valores vinham do salário de R$ 10 mil à época como supervisor de uma grande empresa, sucessivos empréstimos bancários e dívidas feitas em nome dos negócios da família.
"Vivia para o jogo. Ganhava R$ 10 mil por mês e ia tudo pro jogo. Às vezes ganhava um pouquinho mais e cheguei a vender coisa, vendi, vendi tudo. Vendi notebook, TV, roupa, tênis, vendi tudo que eu podia, foi loucura, loucura, loucura", conta.
Hoje, com a nova rotina, e um recomeço. O contato e as conversas com os clientes também ajudam a trazer alegria para Gustavo.
"Não me sentia vivo assim há muito tempo".
O vídeo em que o jovem mostra um pouco da rotina da venda do café no semáforo tinha 36,2 mil visualizações em uma rede social até 21h de terça-feira (25).
Gustavo Pereira vende café em semáforo em SC para ajudar a ocupar a mente e superar vício em bets
Arquivo pessoal
Vício começou com apostas esportivas
Gustavo contou ao g1 que iniciou o vício com apostas esportivas em 2020. "Eu comecei jogando de forma assim recreativa R$ 5, R$ 10, R$ 25, R$ 50. No máximo R$ 100. Eram valores tranquilos".
Porém, a situação foi tomando outra proporção a partir de 2024. Somente com empréstimos bancários, diz dever ainda cerca de R$ 150 mil.
"Parei de lidar só com apostas esportivas e me envolvi com cassinos. Perdi noção de valores, comecei a dever para banco. Mesmo por dentro, sabendo que eu tinha um problema com jogo, eu não aceitava o vício".
Este ano, ele tomou um passo decisivo para superar o vício: a ferramenta de autoexclusão de sites de apostas, oferecida pelo Ministério da Fazenda. Faz três meses que ele tomou essa atitude e disse ter sido fundamental para que ele parasse de apostar.
"Não tinha mais para quem pedir dinheiro, não tinha mais dignidade. Sentia vergonha de sair na rua, de olhar para as pessoas, porque muitos sabiam minha situação".
Gustavo Pereira vende café e chocolate quente em semáforo de Lages, SC
Arquivo pessoal
Como a venda do café está relacionada ao vício em apostas?
Além da ferramenta de autoexclusão, outra medida que ajudou Gustavo a superar o vício foi ter outras atividades para preencher o tempo dele.
"A partir do momento que eu comecei a ocupar minha mente, eu não penso mais em jogo, eu não tenho mais vontade", contou.
O café ajuda Gustavo financeiramente, mas ele também tem outros dois empregos, um à tarde, também relacionado a vendas, e outro à noite, de garçom.
"Como eu trabalho o dia todo, não tenho nem tempo de pensar, sabe? O meu dia começa às 4h, quando eu levanto, vou fazer o chocolate e o café, e eu paro só à meia-noite, terminando de organizar os copos".
A venda das bebidas começou há 20 dias. Ele comercializa o café e o chocolate quente pela manhã e em uma parte da tarde de segunda a sexta. Quem compra, recebe o copo com a bebida e a chave PIX de Gustavo, e paga depois.
"Antigamente as pessoas confiaram em mim e eu as decepcionei. Eu perdi o dinheiro delas, eu as enganei. Hoje, eu confio nelas, eu me obrigo a confiar nelas no meu negócio", relatou.
E essa venda no semáforo tem surtido efeitos também na autoestima e saúde mental do jovem.
"O café está me salvando de uma maneira surreal. Eu não tinha mais coragem, não tinha credibilidade com as pessoas. Eu parei de acreditar em mim. Tudo que eu falava era mentira, o vício desencadeia mentira, desencadeia omissão. No semáforo, no início, eu não conseguia nem olhar nos olhos das pessoas. Hoje já é diferente. Não me sentia vivo assim há muito tempo".
Gustavo contou que atualmente conversa com os clientes, brinca e tenta deixar o dia deles mais alegre.
Gustavo Pereira servindo café para cliente em semáforo de Lages, SC
Arquivo pessoal